Conheça o Núcleo, escola paulistana para alunos especiais

25 nov

O hair stylist do Colegas, Eron Araújo, nos indicou uma escola em São Paulo especializada no atendimento de alunos com necessidades educacionais especiais, o Núcleo Aprendizagem e Desenvolvimento. Confira a seguir a entrevista com Sandra Ferrini, diretora e orientadora pedagógica da instituição.

Sandra Ferrini: "É preciso respeitar a condição existencial do deficiente intelectual enquanto sujeito dotado da capacidade de fazer escolhas."

Que tipo de público o Núcleo atende em termos de necessidades especiais e faixa etária?
O Núcleo desenvolve um programa escolar específico para o atendimento de crianças a partir de 6 anos e jovens (sem limite de idade) com necessidades educacionais especiais, que apresentam um importante déficit cognitivo decorrente de diferentes patologias. O programa abrange os âmbitos da escolaridade em nível de ensino fundamental e da formação profissional.

Quais são os principais diferenciais do Núcleo em relação a outras escolas do gênero?
Por muito tempo, a Educação Especial brasileira pautou-se nos referenciais teóricos norte-americanos e europeus, ou seja, desenvolveu um trabalho com enfoque no assistencialismo, buscando o conforto e o bem-estar do aluno com deficiência. Atuando desta maneira, a escola de Educação Especial segregou (e por vezes ainda segrega) este aluno, na medida em que direcionou sua ação para o preenchimento de lacunas, dando ênfase aos aspectos patológicos e deficitários. Depois a história nos leva a outro extremo, o da Inclusão Social, que teve seu início sem bases estruturais teóricas e práticas adequadas.

Na contramão destes dois modelos educacionais, o Núcleo tem construído um trabalho pautado no desenvolvimento das potencialidades de nossos alunos, considerando os aspectos cognitivos, afetivos e sociais. A condição de SER do nosso aluno é nossa preocupação central. Um SER que, a despeito da sua deficiência, tem o direito de garantir sua existência humana. Assim, o Núcleo tem contribuído com ideias e ações que possam estender o curso dessa história, na medida em que pretende buscar a articulação entre discurso e ação, por meio de uma ressignificação da concepção de escola de Educação Especial.

Vocês promovem diversas oficinas na área cultural. Na sua opinião, quais são as atividades favoritas dos alunos e como elas atuam no desenvolvimento humano?
Todas as oficinas culturais promovem diferentes formas de expressão. Deste modo, contribuem ao desenvolvimento humano como caminho possível de comunicação de sentimentos, ideias, desejos, etc.
Entre as oficinas oferecidas no Núcleo Cultural, as mais requisitadas são: Dança, Cerâmica e Modelagem em Argila e Teatro.

Como funciona a relação entre a escola e os pais dos alunos?
É de transparência e parceria. Os encontros ocorrem sempre que a escola e as famílias sentem necessidade de trocar informações ou refletir sobre determinadas situações que estejam interferindo no bem-estar do aluno. Ao final de cada semestre, realizamos reuniões entre os pais e profissionais da escola, objetivando a discussão do processo de ensino-aprendizagem e do desenvolvimento global de cada aluno.

Em termos de formação profissionalizante, quais são as opções de ensino oferecidas?
A proposta da Educação Profissional mantém consonância com os princípios filosóficos da escola, respeitando, portanto, a condição de SER do nosso aluno, com suas reais possibilidades. Para tanto, é necessário que os cursos oferecidos considerem desejos, aptidões, interesses, possibilidades cognitivas e sócio-afetivas de cada aluno. É necessária a despadronização dos serviços existentes no passado neste âmbito, quais sejam, as Oficinas Protegidas de Trabalho.

Os cursos são organizados considerando QUEM deve aprender e não O QUE deve ser ensinado. Por conseguinte, a estrutura e os conteúdos de cada curso pretendem possibilitar que, a cada aluno, seja assegurado o direito do atendimento de suas singularidades.

O ingresso no curso de Educação Profissional acontecerá quando o aluno, a família e a escola entenderem que ele pode se beneficiar desta aprendizagem. A partir deste momento, juntos iniciamos um processo de identificação de desejos, interesses e um levantamento de aptidões, buscando construir o perfil de trabalho no qual o aluno será qualificado.

A escola existe há 15 anos. Ao longo desse tempo, como vê a evolução da inclusão social na sociedade? O que ainda precisa mudar?
Poucas têm sido as ações efetivas de inclusão social do deficiente intelectual. Podemos verificar, sem nenhuma dificuldade, a existência de políticas mais estruturadas para os deficientes visuais e auditivos (com preservação intelectual), as quais atendem às expectativas da sociedade e de produtividade do mercado de trabalho. Ao passo que em se tratando do deficiente intelectual, não é possível constatar ações verdadeiramente eficazes de inclusão, isto é, ações capazes de contemplar as possibilidades de cada um. A meu ver, os espaços abertos não estão a serviço do deficiente intelectual.

Seria necessária uma efetiva mudança no que se refere ao olhar que dirigimos para o deficiente intelectual. Antes de mais nada, devemos olhar pra ele sem negar a sua deficiência. Além disso, seria preciso olhar para este sujeito a partir de suas reais possibilidades, buscando o lugar e a atividade nos quais ele realmente pode se inserir de modo proveitoso, tanto para o seu crescimento pessoal quanto para a sociedade como um todo. Portanto, não compreendemos a integração como a mera inclusão do aluno deficiente na rede regular de ensino (ou inclusão da pessoa deficiente no mercado de trabalho etc.), e sim como uma inclusão significativa que, a um só tempo, possa atender às necessidades individuais e respeitar a condição existencial do deficiente intelectual enquanto sujeito dotado da capacidade de fazer escolhas.

Saiba mais sobre o Núcleo

R. Domingos Fernandes, 556
Vila Nova Conceição – SP
Tel: (11) 3845.9988
Site: www.nucleoap.com.br

 

Site do Núcleo

3 Respostas to “Conheça o Núcleo, escola paulistana para alunos especiais”

  1. ANA WILMERS 25 de novembro de 2010 às 1:37 pm #

    Aleksandra,
    Olá!
    Sou Aninha e trabalho no Núcleo.
    Deixo aqui um beijo pelo trabalho lindo que faz!
    Fiquei emocionada! PARABÉNS!

    • Aleksandra Zakartchouk 25 de novembro de 2010 às 2:27 pm #

      Ah, mto obrigada, Ana! Um bjo p vc tb!

  2. maria do carmo 22 de fevereiro de 2011 às 8:22 pm #

    Vejo sempre com muito interesse as diferentes propostas para abordar o atendimento e a valorização das pessoas com necessidades especiais. Noto com tristeza, e o caso da Nucleo é mais um exemplo, que no Brasil e em especial na cidade de São Paulo, cada especialista procura dar sua leitura sobre o assunto, ignorando o que de bom pode se aprender de outras experiências.As pessoas especiais precisam de abordagem especiais, de preferência com programas individuais. Esse modelo tem trazido resultados positivos comprovados no exterior (EUA) e no Brasil (lugares onde se reconhece a necessidades da individualidade).Falo isso com conhecimento de causa e de vivência da situação.Sou mãe de uma garota com Síndrome de Angelman (www.angelman.org) e durante muitos anos tive a oportunidade de ver minha filha frequentar a escola nos EUA que passava muito longe de ser assistencialista. Muito pelo contrário, era e é muito realista lidando com cada aluno na medida adequada de sua necessidade.Portanto,convém cada um reconhecer suas limitações e não se julgar como tendo achado o método e a solução de todos os problemas ao padronizar esse método.

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