O Globo: Marcelo Galvão, do tatame para a direção de ‘Colegas’

28 ago
O Globo: Marcelo Galvão, do tatame para a direção de ‘Colegas’

Marcelo Galvão em matéria de página inteira no jornal O Globo

”De tanto ouvir “não” ao longo dos cinco anos em que tentou tirar do papel uma aventura sobre três portadores de síndrome de Down, sob a justificativa de que o tema “pega mal” para a imagem de um patrocinador, o cineasta Marcelo Galvão descobriu um novo significado para a palavra “deficiência”. E ele nada tem a ver com variáveis cromossômicas. Tem a ver com preconceito, inimigo que o diretor enfim derrotou, com glórias, ao conquistar, há uma semana, o Kikito de melhor filme no 40º Festival de Gramado com o longa-metragem “Colegas”. Definida pela crítica como uma espécie de “Pequena Miss Sunshine” (2006) à brasileira, a produção de R$ 6 milhões é estrelada por três jovens com Down, de atitudes e alegria de viver iguais à de Márcio, um tio de Galvão, também nascido com a síndrome, com quem ele conviveu desde menino. Quando o longa foi ovacionado na mostra gaúcha, Galvão se lembrou dos sorrisos de Márcio. E se lembrou também dos “deficientes” culturais que se recusaram a apoiar o projeto, indiferentes à sua dimensão humanista.

— Márcio era irmão da minha mãe e morreu no ano passado, com mais de 50 anos. Passei as férias da minha infância convivendo com ele, em momentos inesquecíveis, porque o Down vive de porta aberta para o lúdico. A inocência, a birra, a forma franca de falar, a emoção à flor da pele, o coração gigantesco e as atitudes engraçadas que ele tinha sempre me cativaram. Por isso resolvi escrever algo que passasse essas sensações que tive para os outros — diz o diretor de 38 anos, nascido no Rio, criado em Campinas e radicado há duas décadas em São Paulo, onde fez carreira na publicidade.

Dizer que Galvão chegou ao cinema à base de muita luta não é uma imagem poética. Graças ao jiu-jítsu, ele virou cineasta.

— Comecei a lutar em 1992 e participei de vários campeonatos. Em 1999, fui para os EUA fazer um curso na New York Film Academy e o dinheiro acabou. Conheci um brasileiro lá que tinha uma academia de artes marciais e comecei a ensinar jiu-jítsu para poder pagar o curso. Durante um ano, eu dormi no tatame da academia e só comia banana para economizar. Com o dinheiro que ganhei, comprei minha primeira câmera e só voltei ao Brasil depois que meu pai sofreu um derrame. Hoje, não luto mais em competição, mas ainda treino — diz Galvão, que saiu de Nova York ainda com uma namorada, a arquiteta Letícia, hoje mãe de seus dois filhos: Eduardo, de 3 anos, e Igor, nascido há 1 mês.

De volta ao Brasil, onde retomou seu trabalho com publicidade, Galvão conseguiu um feito que muito veterano não alcança: rodou, editou e levou a festivais cinco longas num período de sete anos. O primeiro foi “Quarta B”, ganhador do prêmio de júri popular na Mostra de São Paulo de 2005. Inédito em circuito carioca, mas já lançado em DVD, o filme registra as confusões geradas numa reunião de pais de uma escola onde um quilo de maconha é encontrado numa sala de aula do ensino fundamental.

— Vi “Quarta B” e “Colegas”. O mais interessante é que o Marcelo quer fazer filmes para o grande público sem abrir mão da originalidade — avalia o diretor Fernando Meirelles. —Se eu tivesse que citar três diretores em quem o cinema deve prestar atenção, ele seria um deles.

Em “Quarta B”, Galvão iniciou a parceria com quem viria a ser seu ator-fetiche: Deto Montenegro, irmão do cantor Oswaldo Montenegro, que arrebatou gargalhadas em Gramado ao viver um policial trapalhão em “Colegas”.

— A maior qualidade de um cineasta no Brasil não é acertar, é saber errar — diz Deto. — E Galvão sabe quando erra e sabe como fazer melhor.

Sessão hors-concours no Festival do Rio

Acostumado a filmar com orçamentos inferiores a R$ 1 milhão, o diretor fez da experiência em “Quarta B” matéria-prima para seu segundo trabalho como realizador: o documentário “Lado B — Como fazer um longa sem grana no Brasil” (2007). O filme é uma espécie de “Telecurso 2º Grau” para formar cineastas ricos de ideias, mas de bolsos vazios. Em seguida, Galvão usou sua experiência com o jiu-jítsu para rodar a ficção “Rinha” (2008), usando lutadores profissionais no elenco. Filmado com recursos próprios (R$ 300 mil) do cineasta e de sua produtora, a GataCine, o documentário ganhou a Palma de Bronze no Mexico International Film Festival e participou de mostras nos EUA e na Europa. Nem assim, como os dois primeiros filmes do cineasta, conseguiu vaga no circuito nacional.

— Com o tempo, a gente descobre que mais difícil do que produzir um filme é colocá-lo no cinema — diz Galvão, que só viria a conseguir espaço nas salas exibidoras com “Bellini e o demônio” (2009), longa que fez sob encomenda do produtor Theodoro Fontes (irmão de Guilherme Fontes, ator e diretor de “Chatô”), com Fábio Assunção no elenco.

Lançado no Festival do Rio de 2009 no momento em que o ator assumiu publicamente seu problema com drogas, o longa viajou por mostras no exterior. Durante a montagem, Galvão e Fontes se desentenderam sobre a edição, mas acabaram se acertando.

— Discordamos na montagem, só que vi o talento que ele tem. Marcelo escreve roteiros muito bem, o que é um diferencial frente à carência de bons roteiristas que temos — diz Fontes. — Li o roteiro de “Colegas” no início e fiquei impressionado com seu humor. Ele tem tudo para passar da marca de 1 milhão de espectadores.

Analistas de mercado também aguardam com ansiedade a estreia de “Colegas”, prevista para 9 de novembro. Antes, ele terá uma sessão hors-concours no Festival do Rio 2012, que vai de 27 de setembro a 11 de outubro.

— Qualquer filme que emocione tão fortemente quanto “Colegas” emocionou Gramado tem um forte potencial de conquistar um público maior do que se imaginava — diz Paulo Sérgio Almeida, do site Filme B, que contabiliza os ingressos vendidos nos cinemas do país.

Almeida integrou o júri de Gramado que garantiu a vitória de “Colegas” em meio a uma seleção de oito longas considerada a melhor do festival em dez anos. Presididos pelo cineasta Roberto Farias, os jurados concederam ao filme, ainda, um troféu de direção de arte e um prêmio especial para os três protagonistas: Breno Viola e o casal Ariel Goldenberg e Rita Pokk. Na trama, Stallone (Goldenberg), Aninha (Rita) e Márcio (Viola) fogem de um instituto para portadores de Down após roubarem o carro do jardineiro (Lima Duarte). Eles vão de São Paulo até a Argentina a fim de realizar seus sonhos. Stallone quer ver o mar, Aninha precisa se casar no dia de São Judas Tadeu, e Márcio deseja voar. Cinéfilos, eles imitam cenas antológicas dos filmes que viram no instituto, copiando desde o assalto realizado por Tim Roth e Amanda Plummer na abertura de “Pulp fiction” (1994) até a dança do tamanduá africano de Patrick Dempsey em “Namorada de aluguel” (1987).

— Eu mesmo preparei o elenco, à base de ensaios. Não houve muita dificuldade, pois eles têm comprometimento, disciplina e senso para a fantasia. Se você pede que virem um gênio, em segundos eles viram, diferentemente de muitos atores “normais” que precisam de técnicas de dramaturgia para chegar ao personagem — diz Galvão, que usou no longa 60 dos 300 portadores de Down que testou antes da filmagem.

Narrador de “Colegas”, Lima Duarte diz que o diretor não limitou o filme à generosidade:

— Ele enfrentou as limitações dos meninos com sensibilidade, criando uma atmosfera estimulante para os demais atores.

Para Roberto Farias, o Kikito de melhor filme dado a “Colegas” não foi paternalismo, e sim uma resposta a “uma narrativa contagiante”.

— Tudo o que se espera que o cinema faça com o coração da gente, Marcelo fez. Com simplicidade, ele driblou o proselitismo e mostra o Down não como doença, mas como uma casualidade que não é capaz de impedir ninguém de fazer arte —diz Farias.

Após a carreira de “Colegas” por Gramado, Galvão agora se empenha em levantar recursos via crowdfunding (financiamento coletivo), usando o site http://www.catarse.me/colegas, para garantir um lançamento forte para o longa. Em paralelo, prepara o documentário “Três vida e um sonho”, sobre sua experiência no set e fora dele com Goldenberg, Rita e Viola.

— A parte mais difícil era tirá-los dos personagens. E eles sentem falta do convívio com a equipe no set. O cinema que a gente está fazendo não é sobre Down. Queremos contar histórias divertidas sobre a busca de sonhos. Eu não dirigi três deficientes. Dirigi três atores. Três bons atores — diz Galvão. — Tudo o que eu quero é que o espectador veja neles três belas pessoas. Era assim que eu via o tio Márcio.

O Globo – Por Rodrigo Fonseca

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